Em declarações de Amor

Foto: Camila Boff

Foto: Camila Boff

A menina agora era mãe. Abriram-se novas responsabilidades, não somente no que diz a criação e sustento da criança, mas na construção do futuro que ela poderia dar àquele menino. Nas rodas de conversas e músicas do pai, ela sempre ouvia sobre as preocupações com as perdas das identidades culturais.

A cidade estava crescendo e mudando completamente o seu perfil.

“Em cada canto da ilha, em cada estação existia uma magia diferente o que desperta o interesse de quem chega e aqui quer ficar.” Essa é uma fala muito popular nos quatro cantos da ilha, dita pelos manezinhos. Eles conhecem os encantos da sua terra, em cada estação, em cada angulo particular que somente seus olhos captam e fazem questão de nos apresentar.

No entanto, o grande clamor dos seus manezinhos era o respeito a sua cultura e tradição. Zininho era o homem dos microfones, não somente para cantar suas belas canções, mas também para reproduzir seus pensamentos e inquietações. Tinha acesso a todas as leis e monções deliberadas na Câmara Municipal que tratavam da sua ilha, pois além de ouvir presencialmente, ele as gravava. Na maioria das vezes, sempre discordava das ações estabelecidas. Esses fatos não somente entristeciam o poeta, mas iam criando uma ferida invisível que mais tarde se transformara em uma doença que o levaria para um canto eterno da ilha para se eternizar. Zininho partiu. Tornou-se uma estrela a iluminar os caminhos das novas gerações.10544400_10204625577345699_8779907883528296560_n

Para seus filhos deixou uma herança preciosa: suas composições e sua trajetória.  E a jovem Cláudia era uma das responsáveis por manter viva a memória do pai. Ela nasceu para juntar a família. Nasceu em um momento em que era a única criança de uma família  de adultos, como ela mesma conta,  também coube a ela estar no mesmo lugar que o pai estivera, nos corredores da Câmara Municipal participando ativamente de todos os debates e embates políticos da cidade.

Por mais que a política estivesse correndo nas suas veias, ali também corria uma força revigorante da arte. Cláudia era apaixonada pelo pai, sentiu as dores do pai, mas decidiu que se levantaria e gravaria ainda mais o nome do pai em cada canto da ilha.

Ela decidiu que nunca o deixaria morrer essa memória preciosa que herdara. A arte estava inserida na sua vida assim como o ar que ela respirava. A s canções do pai não eram meras canções, mas sim um hino de amor à Ilha, de preservação, de lutas e de uma ideologia que pretendia dar ao futuro um canto do paraíso na capital de Santa Catarina.

Assim começa efetivamente a história de uma herdeira nata do som, da memória e da história em sua alma.

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Ela soltou o seu canto com maestria para honrar todas as divas.

Inspirações não apenas sentidas, mas vivida

De roda em roda

De mesa em mesa

De um coração para corações

Nobres e apaixonados

Se as leis deixavam subir os arranhas céus

Se os que chegam, não chegam só

Trazem contigo a sua herança

Seus prédios

Suas plantas edificando as construções

A música surge da alma

 Do encontro em cada esquina

 Nasce da necessidade de se cantar a boemia

 De se manter a tradição

Mesmo que seja na garra

Na luta diária, no suor, em suas composições.

Sempre cantadas!

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Se você não conhece e quer conhecer mais sobre a história de Zininho e da Ilha de Florianópolis

Impressões de Cláudia

11061998_10207842368803475_5374739230051260925_n“Minha casa, assim como a casa da minha mãe e dos meus irmãos, é uma extensão do acervo que meu pai deixou e que hoje compõem a Casa da Memória e do Museu da Imagem e do Som. Aqui em casa é raro um livro, jornal, revista, disco, fita K7, cd ou qualquer publicação cujo conteúdo não seja a história de Florianópolis em todos tempos e sob todos os aspectos. Na minha família o amor à Ilha sempre foi tradição, além de contagioso. Passa de pai pra filho desde que minha bisavó descobriu esta Ilha e desde então somos criados e educados p/ zelar por este pedacinho de terra e amá-lo acima de tudo, como a nossa pátria – que de fato é. Assim como o pescador ensina seus filhos a emendarem suas redes pra não faltar trabalho e alimento, assim como a rendeira passa seus conhecimentos de bilros e rendas p/ manter a tradição e preservar a nossa identidade, assim minha família segue através das gerações propagando a mensagem de amor à Ilha do legado que herdamos.” ( Cláudia Barbosa)

” A rosa brigou com o jasmim
Ficou tão triste, sentida
Quando vieram lhe contar
Que ele namorou a margarida

Não fiques triste, rosa
Que o jasmim é todo teu
Um dia ele gostou de outra
Mas foi da camélia e ela já morreu.”
(A Rosa e o Jasmim – Zininho)

Assistindo todas essas entrevistas com o Manoel de Barros, me dou conta de que ainda guardo em mim,12096513_10208340994028794_7642459761386264246_n intacto, o cheiro da minha primeira goiaba. Nascer de um poeta deve ser um bônus do Universo. É receber uma alma pura e cristalina e aprender a nutri-la com o alimento certo, com os amigos certos, com as palavras certas, purificando o caminho, fertilizando a terra, lançando as sementes, regando as mudas e colhendo os frutos e as flores. Deus mora nas coisas mais simples e aplicar a poesia na vida assegura a essência mais primitiva de todas as coisas. Obrigada, meu pai, por esta vida de poesia, pelo amor à Ilha e por me ensinar a não perder a conexão com Deus. E obrigada pela primeira goiaba vermelha.  (Cláudia Barbosa)

E como há tempos não fazíamos no Impressões Humanas, vamos Grokar 

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Grokar significa entender tão profundamente que o observador se torna parte do observado—mesclar-se, misturar-se, perder a identidade em uma experiência em grupo)sair da condição de narrador e entrar na primeira pessoa: Eu.

Escrever essa série tem me levado a lugares inimagináveis, a despertar o olhar de observador em cada passeio novo, ou a cada pessoa nova que chega carregada de sentimentos e histórias.

A Cláudia nos levou passear com Zininho pelos seus olhos. Os olhos de Zininho nos levaram a passear pela Florianópolis dos anos 1940, 1950, 1960, até meados de 1970 quando a cidade começou a crescer a perder a sua cultura tradicional.

Como muito de nós nos sentimos quando olhamos para traz e percebemos que a chamada essência que conduzia nossas vidas se transformou em uma imagem antiga que insiste em desbotar com o tempo. A casa dos nossos pais, avôs, tios. O cheiro característico das comidas ao redor de uma mesa.

E sim, os sons. As músicas que tocavam nas vitrolas, fitas k7 e rádios que traziam os sucessos do momento da sua região. A vida tem trilha sonora. E lá em casa um tio adorava tocar Waldir Azevedo e seu conjunto de chorinho. E Cláudia nos levou a um almoço em família com Zininho, uma feijoada com samba, uma cerveja gelada e o prazer de ouvir uma boa música.

Se era bom ouvir na vitrola do tio, imagina como deveria ser bom sentar ao lado do pai e vê-lo cantar e encantar, ouvir seus versos e poemas, crescer diante de uma vasta e rica cultura tradicional com os grandes mestre da música na roda da cozinha de casa.

É admirável o compromisso dela com  sua memória, com sua história, pela preservação da sua cultura, buscando os direitos de um patrimônio histórico imaterial, ao mesmo tempo que luta com garras e dentes pelo patrimônio histórico de preservação da sua ilha de coração.

Por determinados descuidos dos destino, Tanto Cláudio como Cláudia, nasceram fora da Ilha, mas Zininho e Zininha são personagens que ficarão em sua história. Tal pai, tal filha, e assim também serão os netos.

Sim, é dolorido ver as consequências dos medos que Zininho começou a se “esquentar”, se assim podemos definir, com as construções dos prédios da Beira Mar. Como será que ele reagiria ao ver o Norte da Ilha em sua famosa Jurerê Internacional. As praias do Norte completamente poluídas com a imensa quantidade de turistas no verão. O trânsito parado nas principais vias de acesso às praias, e isso não é mais privilégio nem do Norte, ou Sul ou Leste ou Oeste. A cidade para e é tomada por buzinas dos turistas enlouquecidos que querem chegar o mais rápido possível ao seu destino.

Os turistas não chegam só, trazem com eles seus hábitos e seus vícios. Trazem com eles as suas influências e pouco se importam se suas mansões ofuscam a visão das belas montanhas e paisagens da Ilha. O caos chega com o verão. Os problemas de infraestruturas se evidenciam. Assim como uma ostra, a essência da cultura local fica escondida, guardadinha para ser lapidada com o tempo, para como uma bela pérola tornar-se uma grandiosidade para as gerações futuras.

E é assim, que no final de um inverno, dando abertura para a primavera, ventos chegam do Sul um pouco mais calmos que encontramos Cláudia em sua casa, que tem um pouco de história em cada canto, que tem música por todos os lados e uma estátua gigante de Zininho na varanda.

Entramos em um túnel do tempo, perdemos o tempo real e migramos para outra dimensão, onde o samba imperava na Ilha… onde aprendemos a cantar com gosto o seu hino.

E para encerrar esse passeio pelas memórias de Cláudia, nós a acompanhamos até o Choro Xadrez, um projeto que acontece na cozinha de um músico, apaixonado pelo chorinho e pela tradição, que reúne os amigos, que trazem seus instrumentos e começam a tocar a assim vão tocando por horas, fazendo a alegria e a descontração entrar na roda e contagiar o ambiente. E o que mais nos chama a atenção: Todos os músicos são muito jovens. São jovens inspiradores, conhecedores de música, poetas natos que carregam a tradição.

Na parede, retratos de Zininho ao lado de Pixinguinha e Elizeth Cardoso. Na roda, Gabriel Fortunato e Pedro da Costa Pereira, homenageiam o mestre Pixinguinha nos clarinetes, flautas e saxofone. Álvaro Fausane comanda os outros instrumentos e ali estão reunidos pandeiros, cavaquinhos, violão sete cordas, sanfona e quem mais chegar. No vocal, Cláudia faz as honras da casa, encanta e abre a roda paras as novas vozes da nova geração que desabrocham a cada novo encontro.

E como um mosaico de sentimentos tão diferentes e ao mesmo tão iguais, a música atravessa as gerações e continua sendo um elo de paz e um ato  de preservação cultural.

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Pelas Ruas da cidade…a vida continua…

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4 Responses to Pelas Ruas das Cidades T.2 04X02 – Um Canto de Memória e Histórias – Parte Final

  1. Elaine Fúrio. disse:

    Linda história…Temos que lembrar e ter gratidão sempre, por nossos antepassados…Afinal, somos a continuidade dessa bela história*-*

  2. ROSAURA OLIVEIRA disse:

    Maravilhoso um texoto-documentário que faz justiça ao poeta da Ilha, que rememora as impressões familiares segredadas e orgulhosa e encantadoramente partilhadas. Obrigada por registrar essa ‘magia’, essa história, essa experiência laboratorial. Obrigada.

  3. Ana Rodrigues disse:

    Parabéns !!! Lindo texto !!!!

  4. Cláudia Barbosa disse:

    Márcia, tive que parar pra me recompor várias vezes lendo o teu texto. Obrigada pelo belo trabalho, pela dedicação, pelo carinho e pelo olhar generoso sobre minha história, sobre meu trabalho, sobre minha vida. Foi uma viagem incrível visitar a minha infância, meu passado e percorrer a minha vida sob a tua condução. Agora fazemos parte da história uma da outra. Muita sorte, saúde e sucesso p/ levares adiante este nobre projeto que é o Impressões Humanas. Parabéns! Gratidão. <3

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