Um canto de memórias e histórias… em declarações de amor

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Fotos: Camila Boff

Cantos em cantos

Andar pela cidade durante o inverno nos fez refletir sobre a força e a dança dos ventos. Na ilha, os ventos direcionam as ações. Dentro do mar, os surfistas disputam as melhores ondas da temporada com os pescadores, que soltam suas redes ao mar para capturar os cardumes caudalosos de Tainhas. O dialeto “manezes” é mais audível, principalmente quando pescadores e surfistas insistem em negociar quando no Campeche, no Sul da Ilha, os ventos trazem a famosa onda direita. Não, a negociação é quebrada com a chegada em massa de surfistas vestidos com suas roupas de neopreme para se proteger das águas geladas do Sul e bailar nas águas em manobras radicais. E bradam alto: “Enfim, a casa é nossa!” Todos se unem para puxar a rede com toneladas e toneladas de Tainhas, que são contadas, repartidas e distribuídas para cada pessoa que se aproximou e ajudou a trazer para a terra os peixes e saudar a época da fartura e da prosperidade.

Nessa época do ano, a ilha é deles. O mar é deles, os peixes ainda garantem a renda de muitos pescadores que podem na primeira quinzena da temporada de pesca resgatar do mar o sustento dos próximos meses. Na segunda quinzena, chegam os grandes barcos pesqueiros e dominam a pesca dos grandes cardumes. A indústria que engole as tradições e mantém o sustento de outros pequenos pescadores.

As ruas ficam mais vazias, mas dá para se perceber melhor as belezas escondidas em cada canto da ilha. O frio gélido, as luvas, botas, cachecóis e casacos nos acompanham. O vento Sul quase nos faz levitar. Mas, o azul do céu, e mesmo  com nuvens cinzas se compõem com o verde do mar.

Mas, inverno é época de se juntar pra puxar as redes, para se juntar pra beber quentão, comer pinhão, ascender o fogão a lenha e inevitavelmente assoviar uma canção e contar histórias vividas, sonhadas, memórias e histórias em um canto em uma canção.

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Faz parte da natureza humana

 Se juntar para se aquecer

Faz parte da natureza humana

Se juntar para somar

Fazer parte da natureza humana

Cantar para se encantar

 Faz parte da natureza humana

Se emaranhar em vinhos e histórias

E tecer notas e soletrar palavras

E da voz fazer um instrumento

 De graça e comunicação

Assim nasce uma canção

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E dela, um hino de amor e glória

Um desenho mental das paisagens da ilha

Que ao ser ouvido,  que penetra nos poros

 E desperta a mais bonita das emoções

Amor à flor da pele

Memórias de uma história

Embalada em toda a sua orla

No vai e vem do mar!

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Assim é a poesia que se construiu nos cantos das casas, nas rodas de samba e chorinho, nos botecos e mesas de bar. A ilha também tem suas histórias e suas tradições, tem seus poetas renomados e cantores que brilharam no cenário nacional entoando canções e marchinhas que iam além mar.

Muitas delas ainda calam fundo no coração de muitos moradores da Ilha que viveram em tempos ditos de outrora onde se construía uma tradição, uma cultura peculiar de encontros para ressaltar as belezas, as críticas ao crescimento desordenado que já dava seus sinais nítidos nas grandes construções e prédios na região central.

Mas tudo era tratado nas rodas com uma reunião particular entre instrumentos e vozes, emoção e palavras, sorrisos e choros nas declarações de amor, ora bem sucedidas, ora relatando as dores das separações e das dores do mesmo amor.

Eram tantos violões, cavacos, pandeiros, que se misturavam aos metais e pianos, mas entre tantos personagens que davam vida a essa união de amor e vidas, um se destaca pela sua participação ativa na cultura e política social e tornou-se símbolo.DSC_7689

Um “manezinho” chamado Zininho, um poeta que deixou marcas pelas ruas da cidade, que deixou gravado no coração do futuro seu amor em notas e palavras, “O Rancho de amor à Ilha” é hino da cidade e é cantada em todas as cerimônias, datas cívicas, em vários tons e estilos. Um hino de amor. Um hino de luta pelos direitos e deveres dos cidadãos.

Uma história que se confunde com a de Florianópolis, cidade tão amada e cantada pelo compositor. A passagem pelas rádios Diário da Manhã e Guarujá e pelo setor de som da Câmara Municipal de Florianópolis rendeu a Zininho um acervo de áudio sobre a história política e cultural da cidade.

O acervo do poeta é o maior arquivo sonoro catalogado em Florianópolis e está disponível na Casa da Memória.

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Modestamente, abrimos essa história em tom de poesia, quase cantada…

Zininho também deixou um legado em forma de canções.

Suas frases estão soltas pela cidade

 Instiga a quem chega saber o porquê?

de poemas, tanto lirismo em melodia

Uma história tão linda

Que baila com o vento

Que vai do norte ao sul

Nas areias do tempo

Tempo vivido

 Tempo passado

Para revivescimento

Luz de outrora

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 Que ilumina novamente as manhãs de sol

A herança do passado vívida no presente

As canções novamente são entoadas

Compondo uma nova geração

Interessadas no resgate

Alinhadas diante das necessidades

De preservação da memória

Imaterial

Memória da poesia

 Memória da pele

Memória trazida

Nos poros

Nos olhos

 De sua menina.

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Arquivo pessoal

É pelos olhos de Cláudia Barbosa que vamos passear e sentar nessa roda de samba, contar a boemia e saudar Zininho, ou melhor, o senhor Cláudio Alvim Barbosa, mas cantando com Zininha, como é conhecida Cláudia, que herdou do pai o encanto e o canto e faz dessa herança um grande propósito de vida!

Continua…

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