Hoje é dia de Boi de Mamão!

Foto: Camila Boff

Foto: Camila Boff

Pequenas portinhas escondidas pelas ruas da cidade tem a capacidade de nos transportar para universos inimagináveis. Portas comuns que são verdadeiros portais mágicos, onde a música, a dança, o teatro se misturam em palmas e sorrisos que são liberados a cada movimento. É o encanto da arte em cena. É a música do cantador que vai percorrendo os ouvidos, que estremece o ouvido, se manifesta na pele e quando menos se espera o corpo começa a entrar no ritmo: é a dança!

Lua

Ilumina nossa rua

 Hoje a noite está em festa

É tempo de boi de mamão!

Senhor

Dá licença

Pra e dançar em seu quintal

A noite tudo é tão bonito

Melhor mesmo

É boi de Mamão!

Pueirô! Pueirô! Pueirô

(Márcio Guimarães)

E foi assim que ao entrar no Ateliê de Marcio Guimarães, conhecemos a história do folclore de Florianópolis. Não conhecemos apenas as histórias dos personagens coloridos que encantam os turistas, mas sim a história de vida de um nativo que vive até hoje a essência dessa história e busca formas de mantê-las e propagá-la como um grande patrimônio imaterial, que a cada dia vai perdendo suas referencias diante das transformações sociais.

Ao caminhar pelas ruas da cidade de Florianópolis, podemos encontrar várias referências  desta tradição, como em lojas de artesanatos onde o Boi, Maricota, Bernúncia, Cabrinha, Urso, Vaqueiros ao oferecidos como lembranças de todas formas possíveis como presente, mas sem saber seu passado e empoeirando as marcas para o futuro.

No entanto, para o artista plástico Márcio Guimarães, o Boi de Mamãe é uma filosofia de vida. O fascínio e o encanto dessa história começam lá no Morro do Céu, no centro da ilha. Pelos olhos curiosos do menino de quatro anos de idade que via a movimentação e o barulho da rua pelo buraco da porta, assustado, pois ao mesmo tempo em que queria ver, morria de medo do Boi da cara preta.

O Morro do Céu era um local onde emergia uma nova cultura local. Era a área mais próxima ao centro, o bairro que abrigava as boemias, as histórias, os bares e as cantorias. Mas era no morro que a cultura popular se expandia e se proliferava pelas ruas.

Mas pelos olhos do menino

O boi metia medo

A festa era vista pela fresta

O colorido das roupas

Em movimentos ritmados

A dança, a música

Vão compondo as histórias

Vão tecendo sonhos

Encantos

Em prosas

Emoções

Guardadas

Em essências

No coração de um menino

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O medo do Boi era ao mesmo tempo um desafio! Vencer o medo e enfrentar a barreira da porta para a rua e ver de perto a festa. Assim ele fazia boi com caixinhas de fósforo, com toquinhos de madeira. Muitas vezes o boi aparecia até mesmo nos legumes embalando a fantasia.

O menino cresceu, e passou a também perambular pelas ruas do morro e descer as ladeiras para brincar na orla da praia. Márcio fala com alegria dessa possibilidade das crianças poderem tomar as ruas com suas brincadeiras tradicionais. Da sua época de medo e espanto, ao mesmo tempo da sua paixão, de sentir o coração bater mais forte ao ouvir a música chegando e a passagem do Boi pelas ruas do seu bairro.

Os bonecos gigantes e coloridos. As brincadeiras e desafios de cantoria no qual os personagens geralmente traziam “provocações” com assuntos do local. Os meninos mais velhos que aproveitavam as mãos gigantes da Maricota para dar uns safanões nos menores. A Bernúncia que engolia as crianças. Histórias vividas pelo menino em sua infância.

“Tínhamos certa liberdade! Minha mãe sempre dizia que éramos cachorro sem dono, que vínhamos para casa só para comer e se recolher. Nós usávamos a beira mar como praia. Embora nos final dos anos de 1970, início de 1980, já estivesse poluído, mas nós como crianças ignorávamos os avisos, tomávamos banho, jogávamos futebol nas pracinhas ali perto, soltávamos pipa. Mas, quando a noite caia a nossa brincadeira era o Boi de Mamão. E isso atravessava a noite toda. Nossos pais corriam atrás da gente com o chinelo para que voltássemos para casa. Mas sempre tinha um adulto envolvido que se comprometia em cuidar das crianças para que elas pudessem aproveitar as brincadeiras”.

Márcio também comenta outra realidade que já se mostrava que eram as crianças que viviam nos apartamentos e raramente desciam para brincar nas orlas e nas pracinhas. “Nós éramos descriminados, pois morávamos no Morro, no entanto nós pudemos aproveitar o tempo que nos restava para ter uma infância mais rica e livre no Centro. A realidade hoje são as crianças presas nos apartamentos. Elas não podem mais desfrutar os encantos das ruas da sua cidade.”

E assim como todo centro urbano, o crescimento e o desenvolvimento foram acontecendo naturalmente e impossibilitando cada vez mais o livre transito das crianças pelas ruas. Tempos depois houve um decreto municipal proibindo a saída do Boi de Mamão pelas ruas , devido a movimentação do transito de carros.

Na ilha sempre teve as comemorações do Boi de Mamão em outras localidades como no Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, bairros mais tradicionais onde se buscam manter as tradições. No entanto, a folia foi enfraquecendo e alguns núcleos mantiveram os grupos para não deixar morrer a tradição.

Márcio se recorda que sua geração foi a última a brincar o Boi de Mamão nas ruas do Centro.

Fotos: Camila Boff

Fotos: Camila Boff

“Havia um desafio entre os grupos, não por quem seria o melhor, mas quem tinha o melhor perfil de personagem. Quem  interpretava melhor a dança da Bernúncia, do Cavalinho, qual era o melhor Boi. E isso nos fazia buscar ser melhor a cada dia. Era um desafio saudável e isso dava uma vitalidade, um brilho na brincadeira do Boi de Mamão,que ficava cada vez mais linda!”

No entanto, a tradição do Boi de Mamão nunca saiu de sua história. Ele foi estudar marketing, conheceu sua esposa e constituiu sua família, mas o Boi nunca foi deixado de lado. Márcio sempre confeccionava seus bonecos, suas esculturas, sempre participou dos movimentos de preservação do folclore local.

Hoje, Márcio não apenas levanta uma bandeira para que o Folclore de sua terra  seja preservado, ele faz mais do que isso, ele tenta manter vivo esse encanto por anda passa.  O artista e sua esposa levam as festas do Boi de Mamão para decorações de festas infantis, encenam as brincadeiras, fazem palestras em escolas do município contando histórias do Boi de Mamão, além de confeccionar grande parte dos bonecos e adereços que representam a cidade de Florianópolis em grandes eventos.

Entrar em seu ateliê é fazer uma viagem. Uma viagem no tempo e no espaço das ruas do centro e das cantorias. É sentir no pulsar da fala do artista o toque da paixão. Observar nas suas obras o zelo e a afetividade. Ouvir na sua canção a vibração das festas.

“Quando eu confecciono uma peça grande seja do Boi ou de um dos outros personagens, eu não gosto simplesmente de ir ao local e entregar a encomenda, eu gosto de levar uma obra e  dar voz a ela, a fazer dançar e encantar os olhos dos meninos e meninas. Todos nós conhecemos, ouvimos falar das histórias do Boi de Mamão. Nós já tivemos mais de 200 grupos espalhados por todos os cantos da ilha. Hoje nos restam apenas 14. A minha geração foi a última a ir para as ruas e vivenciar a folia do Boi de Mamão. Essa nova geração, até conhece, mas a história de um Boi morto, um boneco, um fantoche. Nós dávamos a ele vida! Nós tínhamos paixão em ver as danças, as cantorias, rir com as pegadinhas. A própria história do Boi contava sobre a mito de morte e ressurreição.  Cada vez que a folia se preparava para descer as ruas, pedir licença para invadir os quintais, o boi estava Vivo!”

Márcio nos conta a sensação, o amor, as graças, as paqueras, a alegria do convívio social. Quando ele fala de dar vida ao Boi de Mamão, ele se recorda dos contatos diários, dos grupos que se reuniam. Das responsabilidades de cada integrante, do respeito e do compromisso.

E assim como em rimas, histórias foram se formando, amores desabrochando…

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Muitos casais se formaram em torno do Boi de Mamão

Muitas vidas se multiplicaram em torno do Boi

Danças nas festas

Na luz do Luar

Medo infantil ofegante

Assombros com as caras pretas

Bonecos Gigantes

Cores reluzentes

Festa do Povo

Abraços de gente

Maricota

Cavalinho

Ursos

Cabra

Bernúncia, Bernúncia

Moravam todos na rua

Alimentavam-se do pulsar

Do coração

Dos sorrisos

Sustos

Medos curiosos

Enigmas

Como diria nosso amigo Márcio:13389173_1043281035767764_618659181_o

O folclore do Boi de mamão está registrado na história! Tem lá seu adereço, mas vivo, vivo, está mesmo no coração e nos olhos de cada menino ou menina que acredita em histórias e sabe que pode dar a elas muita, mas muita vida!

 

Viva! Hoje é dia de Boi de Mamão!

 

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